O DOM E O DEVIR DE UMA EXPOSIÇÃO


A exposição "Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI", que termina este fim de semana,  foi uma extraordinária oportunidade de aprendizagem. De conteúdos (através da pesquisa feita pela equipa e dos valiosos contributos dos consultores científicos do projeto), mas também de metodologias de trabalho em todas as fases do complexo processo que é pensar, organizar e produzir uma exposição temporária. 

Entre as inúmeras dúvidas que nos atormentaram, houve, no entanto, certezas muito sólidas que nos guiaram e irão consolidar-se em projetos futuros: absoluta partilha de conhecimento, valorização das competências profissionais e sentido de serviço público. 

Podemos dizer que as mensagens, que tanto valorizamos, deixadas no livro de visitas da exposição são o melhor avaliador do nosso trabalho. 

Este projeto foi, também, um maravilhoso tempo de parcerias, algumas improváveis, quer com organismos públicos, municipais e nacionais, quer com empresas que muito contribuíram para o sucesso da exposição. 

Desenvolvemos, ao longo deste período, um conjunto de atividades, como  conversas e percursos, visitas e oficinas, promovendo troca de conhecimentos, consolidação de redes e descobertas fascinantes.

Ficarão, com toda a certeza, sementes desta exposição que abriu há mais de um ano e deste projeto que deu os primeiros passos no final de dezembro de 2016. 

Neste fim de semana é ainda possível inscrever-se nas últimas visitas guiadas realizadas pelos comissários e em atividades do Serviço Educativo do Museu de Lisboa e participar no evento Dia Aberto dos Produtores organizado pela Caravana Agroecológica.

E, cumprindo uma promessa feita no dia de abertura da exposição, iremos oferecer, a cada visitante, uma das bombas de sementes que integram o dispositivo que encerra o percurso expositivo.




Mais informação em: https://museudelisboa.pt/pt/acontece/hortas-de-lisboa 


 

AS HORTAS DO MONTE ALMEIDA E O PARQUE EDUARDO VII


Nos  dois últimos terços do século XIX,  a Câmara Municipal de Lisboa alimentou um desejo de melhoramentos da cidade. O ambicioso projeto prolongou-se ao longo da centúria e, a partir de 1874, foi conduzido pelo engenheiro Ressano Garcia.

Entre 1877 e 1903, Ressano Garcia foi responsável  pelo projeto de ligação entre o Passeio Público (do Rossio) e  o Campo Grande, cuja concretização determinou a extinção das hortas do Casal do Monte Almeida, expropriado para a construção do Parque da Liberdade (atual Parque Eduardo VII), que remataria o eixo viário da Avenida da Liberdade.

Imagem 1: Cópia do projeto da zona do Parque da Liberdade, hoje denominado Eduardo VII, e das ruas adjacentes paralelas e incidentes. 1908. Arquivo Municipal de Lisboa.

A cartografia que acompanha o processo de expropriação dos terrenos de Carlos Maria Eugénio de Almeida e de sua esposa regista uma propriedade maioritariamente composta por terras de semeadura e três hortas pintadas a verde, enumerando as 360 oliveiras e restantes 54 árvores diversas plantadas na propriedade (imagem 1).

A horta mais a sul correspondia à horta da Quinta da Torrinha, conhecida maioritariamente através das fotografias de Joshua Benoliel (imagem 2) ou da litografia da Feira Franca, desenhada em 1889 por Roque Gameiro (imagem 3). 

Imagem 2: Parque Eduardo VII, Quinta da Torrinha. Joshua Benoliel, 1916. Arquivo Municipal de Lisboa.

 Imagem 3: A Feira Franca na Avenida da Liberdade, Alfredo Roque Gameiro, 1889. Museu de Lisboa.

 

O mapeamento das hortas na Planta de Júlio Vieira da Silva Pinto

 


Entre 1904 e 1911, Júlio Vieira da Silva Pinto, funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, venceu o concurso público destinado à realização de um levantamento cartográfico de toda a área do município.

 

Este trabalho visava dotar a Câmara Municipal de um documento que traduzisse a extensão total da cidade (aumentada com a assimilação dos antigos municípios de Belém e dos Olivais) e equiparar-se ao detalhado levantamento feito por Filipe Folque, em meados do século XIX e, naturalmente, desatualizado.

 

Foram aprovadas condições excecionais para a esta obra, iniciada provavelmente no ano de 1905, como a obrigatoriedade de acesso a espaços interiores e privados.

 

 

Apesar de não se conhecer a legenda original da planta, as arquitetas Teresa Marat-Mendes e Patrícia Bento d'Almeida (consultoras científicas da exposição) desenvolveram um trabalho de investigação que constata que os edifícios públicos foram coloridos a negro e os civis pintados a cinzento, e que permite considerar que as áreas preenchidas a azul claro são vinha e as parcelas contornadas a amarelo são hortas.

 


As duas folhas originais do levantamento expostas na exposição permitem reconhecer as hortas dos logradouros da zona do Rato e as hortas prisionais da Penitenciária de Lisboa, no topo do Parque Eduardo VII.

COMPOSTAR, COMPOSTAR


O sistema de compostagem do Museu de Lisboa-Palácio Pimenta permite uma gestão mais eficiente e sustentável dos resíduos orgânicos produzidos neste local.

No compostor depositam-se os resíduos do jardim, da mata e do relvado. Por ação de microrganismos, as folhas, os ramos e a relva, são transformados em composto que pode ser utilizado para melhorar a composição do solo.




No vermicompostor colocam-se resíduos alimentares, como restos de frutas e vegetais, que minhocas e microrganismos convertem num adubo natural rico em nutrientes e muito benéfico para as plantas - o húmus de minhoca. Outro produto deste processo é o chorume de minhoca, um líquido que, diluído, pode ser usado como biofertilizante.




Reduzindo a exportação de resíduos e a dependência de fontes externas de adubos, o Museu de Lisboa diminui a sua pegada ecológica.

O compostor do Palácio Pimenta foi desenvolvido pela startup 2Adapt - Serviços de Adaptação Climática e pelo atelier de arquitetura PARTO e integra-se numa estratégia de sustentabilidade que tem vindo a ser implementada pelo Museu de Lisboa. 

ROTA DA CARAVANA AGROECOLÓGICA



𝐂𝐚𝐫𝐚𝐯𝐚𝐧𝐚 𝐀𝐠𝐫𝐨𝐞𝐜𝐨𝐥𝐨́𝐠𝐢𝐜𝐚 𝐩𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐇𝐨𝐫𝐭𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐋𝐢𝐬𝐛𝐨𝐚 ⟡ 𝟏𝟒 𝐍𝐎𝐕 ⟡ 𝟗𝐇𝟑𝟎-𝟏𝟓𝐇𝟑𝟎 ⟡ 𝟏𝟓€
Da horta escolar da Escola Básica e Jardim de Infância de SANto António, à horta comunitária da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa , a Caravana Agroecológica - Portugal leva-nos por um percurso pedonal por três hortas urbanas que se localizam nas imediações do Museu de Lisboa - Palácio Pimenta. Este passeio culmina num almoço preparado pela Kitchen Dates
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Preencha este formulário para participar: https://bit.ly/caravana-agroecologica.



O COMÉRCIO DE ERVAS MEDICINAS EM LISBOA




Pharmacopeia Geral Para o Reino, E Domínios de Portugal. Publicado por ordem da Rainha Fidelíssima D. Maria I, Tomo I Elementos de Pharmacia
1824
Museu da Farmácia - 000091


Em 1704, publicou-se a Pharmacopeia Lusitana, de D. Caetano de Santo António. A obra foi a primeira edição em português e escrita por um boticário nacional.

Contudo, o conhecimento da flora portuguesa e das suas aplicações medicinais, não estava difundido, nem sistematizado.

Várias décadas antes, o alemão Gabriel Grisley publicou Desengano para a Medicina, tentando resgatar as "ervas caídas em desprezo" e corrigir os "enganos". Em 1661, publicou ainda Viridarium Lusitanicum, considerado o único livro de botânica sobre Portugal, onde o autor herborizou mais de duas mil plantas, das quais um terço seriam inéditas e desconhecidas de outros autores.

É certo que o já mencionado desconhecimento justificava o comentário do naturalista francês Merveilleux, em 1738:

«A serra de Sintra [...] produz grande número de plantas, curiosas e invulgares, de que os portugueses não tiram vantagem nem sequer pensam nisso [...]. Para mostrar a crassa ignorância dos portugueses basta dizer que mandam vir da Holanda as bagas de zimbro de que necessitam, quando as suas serras estão cheias delas, particularmente a famosa serra da Estrela de que adiante falarei».

No século XVIII, a par dos boticários e das boticas conventuais, o Rossio era o principal local de venda de ervas medicinais, colhidas nas terras campestres e serranas.

Comprava-se a erva-das-sete-sangrias (para as febres) aos homens que trazem o tojo para os fornos de pão da cidade, por serem os que a conheciam.

Colectores de ervas, ervanários e boticários transacionavam as plantas medicinais, sem conhecimentos em botânica, o que permitia enganos na terapêutica.

É muito provável que esta prática remontasse ao século XVII, conforme refere Gabriel Grisley, no Desengano:

«Da liberdade de poder cada hu᷉ vender as ervas cõ o nome q᷄ quizer, nasce este confuso engano; de q᷄ se segue necessariò o desprezo, q᷄ he o maior obstáculo para hauer curiosos; se quẽ vẽde naõ estiver visto na matéria, facilmẽte fica enganado quẽ cõpra; resultando disso hu᷉ prejuízo euidente em matéria de tãta estima, como a saúde; pello q᷄ se pede, & merece hauer nisto, hu᷉a cautella mui cuidadosa, igual ao menos à que se tem em que se não vendão mantimentos danosos».

 AS HORTAS NO CHÃO DO MERCADO DO FORNO DO TIJOLO

O local onde hoje se encontra o  Mercado do Forno do Tijolo (entre a Rua Maria da Fonte e a Rua Damasceno Monteiro) já foi chão de hortas cultivadas em redor da estrutura de água composta por um poço, um aqueduto e um tanque.

(foto 2)

Quem, em meados do século subisse pela parte baixa da Calçada do Forno do Tijolo (que corresponde hoje à Rua Maria da Fonte), ultrapassa um edifício setecentista, com seu portal singelo de feição nobre e o seu pequeno jardim (letra A), observando à direita o edifício que viria a pertencer a Henrique José Oliveira Sommer, sem  se aperceber de imediato da existência destas hortas. Seria preciso contornar o cotovelo da extensa calçada para, do troço mais elevado, apreciar os campos hortícolas e o engenho de transporte da água (a ligar as letras E e F).

As hortas desenhadas por Filipe Folque, entre 1856 e 1858 (foto 2) permaneceram até ao levantamento de Silva Pinto, realizado entre 1904 e 1911 (foto 3).

(foto 3)

Neste levantamento, que foi o último registo cartográfico destas hortas, que se viriam a extinguir com a construção do Mercado do Forno do Tijolo, registou-se uma grande estufa no jardim do edificio que fora de Henrique José Sommer (letra G) e que permaneceu na mesma família ao longo da primeira metade do século XX.  Mantiveram-se neste sítio a extensa horta e o aqueduto que ligava o tanque (letra E) e o poço (letra F). A propriedade não era, contudo, parte do prédio da família Sommer; tratava-se de um terreno interior, com entrada pelo mesmo local onde viria a ser a entrada do Mercado.  No topo nordeste do terreno existia uma relativamente pequena habitação e o chão das hortas foi delimitado com contorno a amarelo. 

Vejamos, então, a fotografia de Alberto Carlos Lima com legenda:

 


A - O edifício setecentista (atual nº 27 da Rua Maria da Fonte); B- o prédio dos Sommer (atuais nºs 4 a 16 da Rua Maria da Fonte); C- o prédio de esquina da  Rua Maria da Fonte com a Rua Andrade; D- o prédio da atual Rua Angelina Vidal, nº 60; E - tanque da horta; F - poço; G - estufa na esquina do jardim do prédio da Família Sommer.


Os arrabaldes do Areeiro


Nos anos 60, a linha urbana que partia da Praça de Londres, rasgando terrenos de antigas quintas e ramificando-se em núcleos habitacionais de prédios robustos como os da Avenida de Roma ou do Areeiro, permitia adivinhar uma relação de contrastes entre a urbanidade da cidade moderna e o passado rural sobrevivente.

Em 1963, os referentes desta paisagem foram cenário (e, de certo modo, tema) de um filme português, Os Verdes Anos, realizado por Paulo Rocha, explorando esta dicotomia e reforçando o conflito interior de Júlio, um rapaz que veio do campo para a cidade e se enamora de uma empregada doméstica de um andar do prédio do cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida Almirante Reis.

 


Os Verdes Anos, Júlio e Ilda caminhando sobre os elevados terrenos dos limites das antigas quintas do Polão e dos Poiais Vermelhos (parte do atual Parque da Bela Vista).


Numa cena do filme, Júlio e Ilda caminham ao longo de um trilho, na orla das quintas do Polão e dos Poiais Vermelhos (que constituem parte do atual Parque da Bela Vista, sobre a Avenida Almirante Gago Coutinho). Nesse  chão de  quintas ancestrais,  o olhar sobrevoa as traseiras das avenida e espraia-se pelas torres da Praça do Areeiro, longe de adivinhar que, a 12 de janeiro de 1824, o proprietário da Quinta dos Poiais Vermelhos mandara anunciar a sua venda na Gazeta de Lisboa, descrevendo-a com as "três grandes hortas com os seus poços de nora, e tanques, olivais em terras de semeadura, e vinha que dá para cima de 40 pipas (...), parreiras, e árvores de fruta (...)", incluindo as casas nobres, capela e dependências de apoio, livres de foro.


VISITA ORIENTADA PELOS COMISSÁRIOS DA EXPOSIÇÃO


Fotografia de José Avelar/Museu de Lisboa

No próximo dia 17, pelas 15H30, realizar-se uma visita guiada pelos comissários da exposição. Os bilhetes podem ser adquiridos emhttps://blueticket.meo.pt/Event/5846/ 


UMA OFICINA DE GUARDIÕES




No próximo dia 10 de outubro realiza-se no Palácio Pimenta uma oficina prática de guardiões, orientada por Graça Ribeiro, da Associação Colher para Semear - Rede de Variedades Tradicionais.

Nesta oficina serão demonstradas algumas técnicas para a preservação de sementes,  os métodos húmido e seco e a fermentação, assim como a polinização e as condicionantes botânicas, em diferentes espécies hortícolas.

A oficina tem a duração de 90 minutos e destina-se a participantes com mais de 16 anos.

Reservas podem ser feitas para:  reservas@museudelisboa.pt





UMA HORTA VERTICAL NO PALÁCIO PIMENTA



Está a nascer uma horta vertical no Palácio Pimenta. Desenvolvida pela Upfarming,  a instalação "Food Temple"  reflete sobre o potencial da tecnologia na promoção da autossustentabilidade alimentar pela horticultura vertical para consumo das comunidades locais e não só. Para visitar a partir de 2 de outubro.


A HORTA DA JOANA




Um dia Joana concorreu para ter uma horta num parque hortícola de Lisboa. Viveu-a da mesma forma intensa e apaixonada que experienciou outros trabalhos, ocupações, projetos e sonhos que foi acumulando ao longo da vida.

"É um recurso que me preenche muitas coisas. Preenche a proximidade com a terra e com a natureza e com o silêncio e com a alimentação e com o recurso primário de andar alimentada e com o respeito e com o yoga. Isto atravessa todos os campos e mais alguns. E com a verdade das coisas e com as prioridades e com o respeito. Tudo. A horta já era um sonho há uns tempos. A terra cruzava-se com muitos temas e com muitos apelos meus, com muitas necessidades minhas, da natureza, do espaço, da alimentação. É o fascínio da terra nos possibilizar alimento sem ser preciso ir ao supermercado...pequenos estímulos aparentemente inofensivos de árvores, obrigatoriamente todos os dias, tudo somado faz a diferença ao fim de um mês, ou de um ano, ou de vinte, fisicamente, tanto a nível de cabeça, emocional, como de corpo. É a tal relação físico-química. Apanha-se mais sol, baixa-se a pulsação cardíaca porque está-se debaixo das árvores, tem-se mais equilíbrio porque stressa-se menos, a poluição sonora é menor, a poluição visual é diferente e nós somos seres naturais e, portanto, temos outros retornos de viver permanentemente dentro da natureza. E a horta fazia todo o sentido."





 AS HORTAS CASEIRAS DA LISBOA MEDIEVAL 


As hortas ou almoinhas (vocábulo de origem árabe) eram as designações para “o espaço verde anexo à habitação, situado nas traseiras”. Mesmo nas paróquias lisboetas mais urbanizadas, esse pedaço de terreno cercado estava presente, sendo a irrigação assegurada, ou por um poço dentro do próprio espaço, ou um chafariz nas redondezas, ou mesmo pelos despejos domésticos, que forneciam a essas culturas mimosas o fertilizante tão necessário ao seu desenvolvimento.

A maior parte das espécies cultivadas, nessas pequenas hortas caseiras, eram herdadas de época romana e do período muçulmano. Cultivavam-se hortaliças, legumes, leguminosas, ervas de cheiro e medicinais, e até, algumas árvores de fruta e flores, não havendo distinção entre horta e jardim, aliás uma tradição muçulmana, adquirida com os persas. O produto final destinava-se ao consumo familiar, sendo comido cru, cozido ou confecionado em caldos e sopas, ou havendo excedentes, para venda à porta das habitações.

Um dos hábitos dos lisboetas medievais era o de plantar ervas protetoras contra o mau-olhado, como a arruda ou ervas medicinais como o alecrim cujo fumo era considerado “um dos melhores desinfetantes, bom para afugentar os germens da pestilência que flutuavam na atmosfera”. Em 1492, perante mais um surto de peste, o rei D. João II exigiu ao Senado da Câmara, que tivesse disponível grandes quantidades de alecrim para defumar em abundância, nas casas e nas ruas de Lisboa.

Mas as alterações urbanísticas do século XVI ditaram a decadência das hortas caseiras de Lisboa. O próprio Gil Vicente colocou na boca de Maria Parda um clamor perante a falta de verde, nas ruas de Lisboa:

“Ó triste rua dos Fornos

Que foi da vossa verdura?”

Na atualidade lisboeta, e depois de uma “pestilência” que nos colocou em confinamento, talvez outro dramaturgo possa colocar na boca de uma personagem:                   


“Ó alegres varandas e açoteias

Tão cheias de tanta verdura!”


Texto de Ana Paula Antunes


Pormenor do Livro de Horas de D. Manuel I, Calendário (mês de janeiro), António de Holanda (atribuído a), 1517-1551, Pergaminho, Fólio 5, Museu Nacional de Arte Antiga

 OS PIMENTOS

A associação Colher para Semear - Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais - realizou, no âmbito da sua colaboração com o Grupo de Trabalho para a Promoção da Agricultura na cidade de Lisboa (Pelouro do Ambiente, da Estrutura Verde, do Clima e da Energia), uma recolha de sementes tradicionais em sete dos 21 Parques Hortícolas Municipais.

A imensa variedade de sementes recolhidas, junto de 75 hortelãos é reveladora de um património vegetal riquíssimo que existe nos Parques Portícolas de Lisboa e  tem como guardiões, as mulheres e os homens que cuidam das hortas e aí reatualizam saberes e práticas muito antigas.

Na exposição é possível ver uma parte do resultado desta colheita e, através das extraordinárias ilustrações de Mafalda Paiva, apreciar a beleza intrínseca das plantas que fazem parte da paisagem alimentar dos lisboetas.


PIMENTO CÓNICO
Ilustração de Mafalda Paiva




PIMENTO NORA REFEGADA
Ilustração de Mafalda Paiva




PIMENTO COROA DE BISPO
Ilustração de Mafalda Paiva


PIMENTO JINDUNGO
Ilustração de Mafalda Paiva


APRESENTAÇÃO DO CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO HORTAS DE LISBOA



O Museu de Lisboa lança o catálogo da exposição Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI no dia 8 de setembro, às 18h, no Palácio Pimenta.

A edição do catálogo da exposição Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI constitui um contributo do Museu de Lisboa para a história das hortas de Lisboa e para a reflexão sobre o seu futuro, passando por temas tão atuais como a sustentabilidade, a soberania e a segurança alimentares da cidade. 

São mais de 40 artigos, em português e inglês, que, ao longo das 208 páginas, mostra de forma transdisciplinar como as hortas evoluíram na cidade ao longo de mais de oitocentos anos bem como a relação dos hortelões da Lisboa de hoje com as suas hortas, levantando ainda questões e deixando pistas sobre o papel que as hortas urbanas podem ter nos desafios do futuro. 

Através da cartografia, da pintura, da literatura, da fotografia o catálogo, em complemento à exposição, permite-nos uma viagem multidisciplinar pelas hortas de Lisboa. Especialistas em história, antropologia, arquitetura, biologia, engenharia ambiental, hidrogeologia, recursos hídricos subterrâneos e agronomia concorreram para um entendimento mais cabal dos territórios, dos trajetos, das práticas e das narrativas, das personagens, das estratégias e das políticas do universo das hortas da cidade. 

Esse olhar multidisciplinar constitui a espinha dorsal desse projeto - fundamentalmente da autoria de Daniela Araújo, antropóloga, que partilhou esta ambiciosa tarefa com o historiador Mário Nascimento, ambos membros da equipa do Museu de Lisboa - permitindo complementar leituras, posicionamentos e escolhas.

Inaugurada a exposição em 2020, o respetivo catálogo que o Museu de Lisboa agora publica integra as edições oficiais da Lisboa Capital Verde Europeia 2020.

 AS PLANTAS SAGRADAS DE WALAFRID STRABO



Urtiga, Urtica dioica L.
Funcho, Foeniculum vulgare
Salva, Salvia sclarea L.
Sara Simões
2020

A planta da abadia suíça de Saint Gall, datada do século IX, revela, nos desenhos da horta, do jardim medicinal e do pomar, a matriz do hortus beneditino. Nos jardins medicinais, cultivava-se apenas uma espécie por canteiro, devidamente identificada, para evitar erros fatais na administração das preparações medicamentosas.

O poema Hortulus, de Walafrid Strabo, monge beneditino do século IX, menciona 29 variedades de plantas, na sua maioria ervas medicinais, como a urtiga (usada para a tosse), o funcho (para alívio das cólicas abdominais) e a salva (para a falta de apetite), evocando o vasto conhecimento botânico que os beneditinos acumularam numa Europa que ajudaram a civilizar.

 COMPOSTAR E FECHAR CICLOS


Os resíduos orgânicos, de hortas e jardins urbanos, como folhas e ramos, podem e devem ser depositados nos compostores domésticos.

Depois de decompostos, estes resíduos, juntamente com aqueles que são transformados nos vermicompostores, são usados para alimentar a horta e produzir mais matéria orgânica.

Evita-se, desta forma, sobrecarregar os aterros com matéria que é útil na horta; afinal, na natureza, os padrões são sempre cíclicos, pois nada se acumula indefinidamente e tudo se transforma.



 

 VISITA ORIENTADA PELOS COMISSÁRIOS





Domingo, 15 de agosto, às 15h30.

Bilhetes disponíveis em: https://blueticket.meo.pt/Event/5631/
Ou diretamente na bilheteira do museu, no dia do evento, sujeito à disponibilidade de vagas.

 AS HORTAS NA TOPONÍMIA DE LISBOA



A toponímia lisboeta evoca seis hortas da história da cidade, dispersas pelas freguesias da Misericórdia, Estrela, Belém e Carnide, permitindo revisitar a memória rural de Lisboa em diferentes épocas do crescimento urbano.

As atuais ruas das Hortas e da Horta Seca, bem como as travessas da Horta [do Cabra], da Horta da Cera e da Horta Navia terão surgido de forma espontânea, criadas pelos lisboetas.

Embora seja tão difícil datar, com precisão, cinco das seis denominações, como pormenorizar a cronologia e natureza das hortas que lhes deram origem, é possível associar cada local a momentos diferentes de alteração urbana, entre os séculos XVI e XIX.

Essa toponímia “natural” manteve-se até 1859, ano em que a racionalização da toponímia alterou a naturalidade das denominações espontâneas, submetendo-a a um processo administrativo. Esta mudança terá contribuído para a efemeridade e gradual desaparecimento de referências a hortas ao longo da segunda metade de oitocentos e de todo o século XX. Data de 10 de outubro de 1977, o único edital contemporâneo  que identifica como Rua da Horta Nova o arruamento resultante da urbanização da Quinta da Horta Nova, em Carnide.

CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO


O catálogo da exposição "Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI" pode ser adquirido no Museu de Lisboa - Palácio Pimenta já a partir de amanhã, dia 31 de julho.