O DOM E O DEVIR DAS SEMENTES
© José Avelar / Museu de Lisboa
Em cada semente «antiga», há um património genético único, um capital simbólico, histórias e identidades pessoais e coletivas entrelaçadas em saberes tradicionais e redes locais de partilha e entreajuda. Há, também, uma biografia longa, de resistência, evolução e adaptação. Uma herança preciosa transmitida de geração em geração capaz de convocar natureza e cultura. Mas a profunda transformação dos modos de vida baseados na autossuficiência tem conduzido à erosão do património vegetal agrícola tradicional e à perda de variedades de polinização aberta, isto é, polinização através de insetos, pássaros e vento. Estratégias de salvaguarda distintas, como recolhas no terreno, conservação em bancos de sementes, bibliotecas de sementes, espaços privilegiados de troca, e processos de patrimonialização procuram assegurar que a agrobiodiversidade, património de toda a Humanidade, não se perca irremediavelmente. Semear, cuidar, colher e deixar germinar. Uma e outra vez. Promovendo a diversidade alimentar, o património culinário, a independência e a autonomia.
Na exposição poderá encontrar uma verdadeira biblioteca de sementes tradicionais que contém uma amostra de recolha realizada pela Associação Colher para Semear em sete dos 21 parques hortícolas municipais junto de 75 hortelãos.
UM HOTEL PARA OS INSETOS DA CIDADE
OS SETE ANOS DE HORTICULTURA DE MANUEL JOAQUIM PIMENTA DE CARVALHO NO CAMPO GRANDE
Manuel Joaquim Pimenta de Carvalho, António Joaquim,
21 de fevereiro de 1830, desenho. (MC.DES.3917)
Poucos anos depois de ter sido retratado por António Joaquim, Manuel Joaquim Pimenta de Carvalho comprou a quinta e palácio dos Galvão Mexia, no Campo Grande. Esta compra não foi isolada e, no final da sua vida, a Quinta do Pimenta designava uma propriedade com cerca de 40 hectares, maioritariamente localizada no lado ocidental do jardim do Campo Grande.
Manuel Joaquim Pimenta de Carvalho foi um capitalista nascido em Coimbra, em 1794, que se estabeleceu em Lisboa, tendo ficado conhecido por Manuel Joaquim Pimenta, nome que se celebrizou pela contenda judicial que moveu contra o Conde de Farrobo, em torno da "Questão dos Tabacos" - uma disputa pela renovação do contrato dos Tabacos, com contornos económicos e políticos e que se prolongou nos tribunais durante anos.
Entre 1870 e 1877 (o ano da sua morte), organizou um Livro de Contabilidade da sua extensa propriedade, anotando os encargos de conservação e de melhoramentos efetuados, a par dos rendimentos obtidos com os arrendamentos das propriedades ou da venda dos produtos que cultivou.
A parcela de terreno que geriu
diretamente (sem arrendamento a terceiros) foi minuciosamente gerida e anotada
no referido livro e sabemos que, a par do pomar, olival e vinha que mandou
plantar, cultivaram-se alguns hortícolas como favas, ervilhas, grão, milho,
batatas e cebola.
CONVERSA «FAZER AGROECOLOGIA NA CIDADE»
A sexta conversa no âmbito da exposição «Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI» explora os princípios e as práticas da agroecologia na cidade de Lisboa. Os convidados refletem sobre a articulação entre ciência, práticas agrícolas sustentáveis e movimento social em contexto urbano e sobre a importância da partilha de experiências e da construção coletiva do conhecimento em torno dos agroecossistemas.
Com a presença de Inês Costa Pereira, David Avelar e Florian Ulm (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa /Caravana Agroecológica).
Palestra transmitida por zoom (https://zoom.us/j/93958079639?pwd=OEVIZ2ZRZDdVWkVqOHRFbzZjVXRpZz09) e em direto na página principal de Facebook do Museu de Lisboa: https://www.facebook.com/museudelisboaEGEAC.
SOB O SIGNO DA LUA
@ José Avelar/Museu de Lisboa
Almanaques, lunários,
guias e manuais popularizaram o conhecimento da horticultura e da jardinagem.
Começaram a ser publicados no início do século XVII, mas foi a partir de
oitocentos que se deu um crescimento exponencial destas publicações, apesar da
elevada taxa de analfabetismo de então.
Escritos em português por
astrónomos e outros autores, numa linguagem clara e de preço acessível,
destinavam-se a lavradores, hortelãos, pomareiros, jardineiros e ao público
rural em geral. Forneciam indicações práticas sobre as atividades a realizar ao
longo do ano nos campos, nas hortas e nos jardins, de acordo com o calendário lunar, e incluíam informações sobre festas religiosas, dias santos,
festas móveis, feiras, eclipses lunares e estações do ano.
A HORTA DO PALÁCIO ANADIA OU DA QUINTA DE
SÃO JOÃO DOS BEM CASADOS
Em 1911, aquando do levantamento cartográfico de Silva Pinto, já os limites noroeste e norte da quinta haviam sido urbanizados, mas mantinha-se ainda uma extensa área de cultivo e a organização oitocentista do espaço
Ao longo da Rua Direita de São João dos Bem Casados (o limite direito da propriedade, na terceira imagem), identificam-se prédios e respetivos jardins e, no topo norte, um recorte maior sobre os terrenos da quinta localiza o viveiro e horto de Marcolino Teixeira Marques. No entanto, a horta permaneceu na continuidade do jardim formal, junto ao tanque e outro ponto de água, com os seus talhões desenhados com um contorno amarelo.
A horta viria a desaparecer com a alienação da quinta a partir da terceira década do século XX. Nestas terras, foi construído - a partir de 1923 - o complexo desportivo do Sport Lisboa e Benfica, com um campo de futebol, dois courts de ténis e um campo de basquetebol (posteriormente urbanizados por um troço da Avenida engenheiro Duarte Pacheco e pelo Liceu Francês Charles Lepierre).
[Plantas do levamento cartográfico de Silva Pinto], 1911, CML/lx-interativa.
HORTA DE LISBOA - UMA FOTOGRAFIA INÉDITA DOS JARDINS DE ENSAIOS DE FREDERICO DAUPIAS
Frederico Daupias nasceu em Lisboa, em 1839, e faleceu na cidade de Paris, em 1928. Descendia de Jácome Ratton, o comerciante que relatou com pormenor e colorido, nas suas memórias, o Terramoto de 1755. Era, também, sobrinho do conde de Daupias, reputado colecionador de arte, industrial e filantropo, proprietário da Horta Navia, em Alcântara.
Daupias foi o proprietário da Casa de Sementes Frederico Daupias, na Rua Nova do Carmo (atual Rua do Carmo) e dos Jardins de Ensaios, na Rua do Arco (atual Rua do Arco a São Mamede). Os Jardins de Ensaios foram idealizados como espaço de experimentação hortícola, mas também como recinto de exposições de floricultura, iniciadas em 1896 e com uma periodicidade anual. A primeira exposição, dedicada aos crisântemos, testemunha o papel pioneiro de Daupias na introdução desta moda em Portugal. Anos mais tarde, em 1907, fez construir nos Jardins um chalet.
Na segunda imagem, assinalam--se referências determinantes para a identificação e localização dos Jardins de Ensaio. O primeiro plano apresenta algumas couves e arbustos ornamentais floridos. À sua esquerda, mas num plano de fundo de grande proximidade, os prédios da Rua de São Bento e o arranque da íngreme Travessa de Santa Quitéria (letra B), podendo ver-se as torres sineiras da igreja de Santa Isabel (letra A).
Ao fundo da Rua de São Bento, identifica-se, ainda, a atalaia ou mirante da antiga quinta do Biaggi (letra C), mais abaixo, a fachada lateral do Convento das Trinas do Rato (letra F) e, descendo a Rua de São Bento, reconhece-se a fachada rematada por um telhado de duas águas do atual número 315 (letra D).
Por fim, e retomando o ponto da letra B, o cruzamento da Travessa de Santa Quitéria, vislumbra-se o leito da Rua do Arco, subindo em direção à margem direita. A fotografia não permite ver os arcos do aqueduto, mas ainda se consegue ver um barracão que se sabe ter estado encostado a este troço do aqueduto, no lado direito de um pátio (letra E) e que se pode confirmar no pormenor do levantamento dos Goullard (terceira imagem).
NOTA
Frederico Daupias ocupa, com Francisco Simões Margiochi, lugar de destaque no núcleo da exposição dedicado aos horticultores de oitocentos, mas também na programação associada. Consulte-se a edição das Conversas da Exposição do dia 9 de março, dedicada aos horticultores de oitocentos, que teve como convidada Ana Duarte Rodrigues, consultora científica da exposição (https://www.facebook.com/museudelisboaEGEAC/videos/901840303940734), assim como a próxima rúbrica À Mesa com o Museu de Lisboa, no dia 28 de maio, às 20h, no Facebook do Museu de Lisboa.
A HORTA DA QUINTA DO MARQUÊS DE FRONTEIRA EM BENFICA
No último terço do século XVII, D. João de Mascarenhas, conde da Torre e primeiro marquês de Fronteira, fez construir um pavilhão de caça e elaborados jardins na propriedade que a família possuía em Benfica.
Este pavilhão, integrado numa mata e quinta de produção
agrícola, veio a tornar-se a residência principal da família após a destruição
do seu palácio no centro da cidade, ocorrida no dia 1 de novembro de 1775, com
o Terramoto. A alteração funcional do palácio, ampliado com uma nova ala
habitacional, também promoveu algumas alterações nos jardins e na quinta.
Este conjunto, formado por um palácio e seus edifícios
anexos, mata, jardins e quinta, permaneceu afastado da cidade até à urbanização
de Benfica, a partir da segunda metade do século XX. Encontrava-se, porém,
associado a um pequeno núcleo habitacional, na proximidade de outra quinta
famosa, a do comerciante inglês Gerard Devisme e do convento de S. Domingos de
Benfica. A partir dos finais do século XVIII, o pitoresco do conjunto foi
representado em várias gravuras e numa pintura da coleção do Museu de Lisboa,
que aqui reproduzimos (imagens 2 e 3).

A quinta tinha, desde os tempos do primeiro marquês, pomares
e hortas integrados no conjunto dos jardins e da mata, organizados nos três
socalcos construídos para vencer o declive da encosta onde o conjunto se
insere. No terceiro nível, o mais elevado em relação à casa, situava-se a mata
(como se pode observar nas imagens 2 e 3, atrás do palácio); o segundo nível
(abaixo do terceiro), corresponde ao palácio e aos jardins; o primeiro nível,
inferior em relação aos anteriores, correspondia à zona de produção agrícola da
quinta, as hortas e os pomares.
A par deste declive, a quinta era atravessada por uma
ribeira e a água era armazenada em lagos e tanques, simultaneamente
cenográficos e funcionais, otimizados através do sistema hidráulico que
alimentava os jogos de água, construído pelo primeiro marquês, D. João de
Mascarenhas.
As hortas e pomares foram mantidos e aumentados, no século
XVII, pelo segundo marquês e novamente aumentados, no século XIX, pelos oitavos
marqueses de Fronteira, D. Maria Mascarenhas Barreto e Pedro João de Morais
Sarmento, reputado horticultor oitocentista.
No início do século XX, as hortas da Quinta do Marquês de
Fronteira foram cartografadas a sul e a nascente do palácio, em duas plantas do
levantamento cartográfico de Silva Pinto. Na planta nº 6L, pode observar-se a
zona das hortas, afastadas do palácio pelos jardins formais e secundarizadas na
paisagem a partir da casa, ora pelos muros da Galeria dos Reis, ora pelo
desnível do terreno, numa cota inferior (figura 4: destacado a cores).
Palácio e parte das hortas da Quinta do Marquês de Fronteira (adaptado), Júlio António vieira da Silva Pinto e Alberto de Sá Correia, outubro de 1908, Arquivo Municipal de Lisboa.
No século XXI, as zonas da horta foram valorizadas com a plantação de um pomar (2002) e do nivelamento dos terrenos (2003), integrados em campanhas de restauro dos jardins.
Embora o arquiteto Frederico George (segundo marido da 11ª
marquesa e padrasto do 12º marquês, D. Fernando de Mascarenhas) tenha fotografado
as hortas da quinta em meados do século XX, a sua importância decaíra a ponto
de, em 2011, se ter ajardinado parte da zona agrícola, na continuidade dos
jardins formais, com o jardim das laranjeiras e o laranjal.
CONVERSA «A PLANTA DE SILVA PINTO E AS HORTAS DE LISBOA»
A quinta conversa no âmbito da exposição «Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI» debruça-se sobre o primeiro levantamento da planta de Lisboa realizado no século XX, entre 1904 e 1911, pelo engenheiro Silva Pinto.
Refletindo sobre convergências, permanências e ruturas no território da cidade, Teresa Marat-Mendes conversa com os comissários da exposição sobre a legenda desta Planta e a representação das hortas.
Palestra em direto na página principal de Facebook do Museu de Lisboa: https://www.facebook.com/museudelisboaEGEAC.
BANCOS PRIVATIVOS DE SEMENTES
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A QUINTA DO JACINTO Hortas das casas económicas da Rua N.º 5 do Bairro da Quinta do Jacinto, Alcântara Roiz, Lda. Década de 1940 Arquivo Mun...
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AS HORTAS DE FRANCISCO ISIDORO VIANA Francisco Isidoro Viana, o fundador da Casa Bancária Fonsecas, Santos e Viana (que, mais tar...











